wSueli Catao
Quem falava pelos cotovelos agora escreverá por eles


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wQuinta-feira, Setembro 13, 2007


Tratamento ou tortura?


O Ministério Público de Araruama recebeu, dia 10 de setembro, um pedido de apuração de possível crime culposo – agente de saúde agindo com imperícia, negligência e imprudência – que resultou na morte de um senhor de 88 anos.
Falar mal da estrutura dos hospitais públicos, já virou rotina. Morre-se aqui e ali, por falta de atendimento. Enfermarias superlotadas, médicos com péssimos salários são itens repetidos nas notícias dos jornais. O estado brasileiro reconhece a falha, promete correção e a situação só faz piorar. Só que a ocorrência não foi na rede pública, mas sim num hospital particular – o HC Lagos, em Araruama.
É por isso que, na cidade, tem gente preferindo encarar o hospital geral – do Estado – que a internação no HC Lagos, o de melhor aparência no município. Dirigido por um grupo de médicos que estruturou a Unimed em Araruama, o hospital, por isso mesmo, é conhecido como o hospital da Unimed, o que dispõe de UTI, apresentada como de excelente qualidade.
Que o empreendimento, enquanto atividade comercial, dá lucro, não se tem dúvida: basta ver os carrões importados que duas diretoras do estabelecimento estacionam na porta de entrada, em vagas cativas, delimitadas por cones. Vale a torcida para que o hospital não tenha adotado o lema “o lucro acima de tudo” – o mesmo da TAM.
Foi exatamente na UTI – a instalação mais cara do hospital – que José Álvaro teve sua vida encerrada no dia 27 de agosto.
Alguém há de argumentar que, com a idade dele, a morte já era esperada. A família até concorda. Ele vinha enfrentando sucessivas internações em seu último ano de vida. Tinha problemas pulmonares, dificuldades com os rins e um coração comprometido. Os médicos sabiam disso. Criaram, então, uma imagem contrastante: era, ao mesmo tempo, um homem forte e um cristal a ser conduzido na corda-bamba.
Por sua vez, o paciente queria viver. Acometido de séria doença na coluna, ameaçado de não mais andar, consegue se levantar e volta a se locomover, com apoio da cadeira de rodas, de muletas e do andador. Fazia ginástica diàriamente. Em Praia Seca, onde morava, era visto sempre na beira da praia, apreciando o mar. Cuidava de plantas na varanda, lia, ouvia música e acompanhava alguma programação de TV. Comia bem. Almoçava com gosto. A alimentação era reforçada, seguindo orientação médica.
A penúltima internação ocorrera há 4 meses – uma internação curta, de dois dias. A febre voltou, no dia 11 de agosto, um sábado, véspera do dia dos pais. Foi levado pelos filhos para o Hospital mais perto de sua casa – o HC Lagos. O diagnóstico foi infecção pulmonar, pressão baixa, um caso para a UTI. A família pede um quarto, os médicos negam: não podem colocar em risco a vida do paciente.
Dia seguinte, Dia dos Pais, debelada, em princípio, a infecção, queixa-se de frio e de fome. O atendente explica que não há cobertas: foram para a lavanderia. Quanto à fome, os médicos o colocaram em dieta pastosa, para evitar o risco da bronco-aspiração. O frio é maior porque o leito fica sob um enorme aparelho de ar condicionado – aparelho que foi desligado durante a visita, a pedido dos familiares. Segunda-feira, o paciente é transferido de leito.
Ainda no domingo, na tentativa de não perder os movimentos duramente conquistados, faz ginástica na cama. A repreensão da médica foi séria.
Tudo que o paciente quer, nessa altura, é voltar para casa, ainda vivo. A família queria vê-lo, pelo menos, num quarto, onde fosse possível assistí-lo com o carinho a que estava acostumado. Nada disso. O conflito entre paciente e atendentes se estabelece. Querem raspar sua barba, mas ele reage: só minha mulher mexe na minha barba. Querendo quebrar a resistência do paciente, os atendentes apelam para a família, que é taxativa: ele é lúcido, gosta da barba que tem e ninguém está autorizado a tirá-la.
A sedação não demora. É a forma para evitar a rebeldia.
Só que o organismo do paciente tem reações adversas às substâncias tranqüilizantes. O chefe da UTI se defende: “eu pedi “encarecidamente” que não o sedassem, mas os médicos têm liberdade de ação”.
Esse foi o primeiro erro. Dopado, o paciente pára de se alimentar. Vem então a imperícia grosseira: a tentativa de colocar uma sonda nasal resulta em severa hemorragia, Vem a negligência: a visita começa. Da sala de espera, se ouve a tosse do paciente, que regorgita sangue, enquanto um atendente tenta dominá-lo pelos pulsos. Uso de força na frente da família. Ato seguinte, depois de mais de meia-hora, o paciente vomita. Os médicos usam linguagem técnica: “bifes de fígado”. Só aí percebem que alguma coisa muito grave estava acontecendo.
A visita aos pacientes se encerra, um otorrino é convocado – chega de capacete na mão – e consegue tamponar o vaso arrebentado. Tarde demais: a temida bronco-aspiração, evitada a custa de fome, acontecera. O sangue inunda os pulmões do paciente.
A truculência do tratamento é inevitável: o paciente tem os pulmões aspirados, foi entubado – em síntese, fizeram com ele tudo que ele não queria. Nos dias seguintes, seu rosto era só dor, o peito arfava forte, os olhos revelavam desespero; seu braço, muito inchado, era um adeus, uma pergunta:
- Por que estão fazendo isso comigo?
Não conseguiram reverter as conseqüências do erro cometido.
-“Fatalidade” – explica o chefe da UTI.
Tirado do tubo 11 dias depois, José Álvaro não resiste, tem um enfarte e quatro paradas cardíacas, por volta do meio-dia. Eram cerca de 22.30 h quando o hospital convoca os familiares. O óbito ocorrera às 21h. O milagre do uso de nora-adrenalina na preservação da vida preserva, na verdade, a imagem do hospital, evitando a ocorrência de um óbito durante o dia.
Coincidência – dirão os doutores.
A pior coincidência é que José Álvaro era meu pai e pensei que plano de saúde pudesse evitar, pelo menos, atropelamento em plena UTI. José Álvaro poderia ter morrido antes ou depois. A família sabia que isso iria acontecer. O pior foi vê-lo agredido, como se estivesse sendo torturado, maltratado em nome da preservação do bem que ele tinha como mais caro: a própria vida, tornada um suplício antes de sua morte.

Sebastião C. T. Freitas
OAB 52.877 – RJ
MTb 18.951 – RJ – reg. jornalista




posted by Sueli Catao de Vasconcellos at 12:07 PM